sexta-feira, 7 de março de 2014

Samba pra moça da padaria

É de manhã e eu já sei
É de manhã que agora eu sei
Que vou te ver quando o sol nasce
Que você vem quando a noite vai

Todo dia, todo santo dia
Caminho sorridente e controlado
Pelo curto caminho até a padaria
Todo dia
Por você, vou à padaria todo dia
E eu sequer como pão!

Existem diversas provas de amor gigantescas
Mas, veja bem, todo dia faço torradas
E as dôo no dia seguinte
Aos mendigos que encontro
no caminho para o trabalho
Eu sou um homem bom, por você
Todo dia eu compro pão
Só pra te ver.

O quartzo

É muito difícil saber que existem outros amores
Tão intensos e tão poéticos quanto o meu
Incansavelmente belos em suas essências
Para preencher seu coração
Poderá você dizer que não
que não há mulher no mundo tão fantástica quanto eu
Mas, há
E são tantas que até você perdeu a conta...

Porque de olhos castanhos este planeta azul já está cheio
E também possui toda a sua variedade de tons
Peles de várias texturas
Bocas de diversos formatos
Infinitos timbres de voz
Incalculáveis formas de se dar um beijo

Não, não sou nada além de uma migalha
E a minha insignificância perante um mundo inteiro
é brutal para a minha sensibilidade
Me rasga qualquer esperança que eu chegue a tentar manter
Machuca o desejo de pensar na possibilidade do que não é impossível

O tic-tac do relógio desta vida me deixa surda
E aí eu também fico muda
Porque se eu falo eu explodo, “Fernanda Vulcão” é um perigo tremendo
Me ausento no dormitório de meus pensamentos e repouso o raciocínio
Nunca gostei muito de pensar, principalmente quando estou amando
Mas, eu amo sempre...
Não fico sem amor, eu emendo e acrescento
Não subtraio amor da minha vida, multiplico por 100
e nem calculo a porcentagem
Cálculos são para os pensadores e eu quero ser só uma pedra

Uma pedra, por que não?
Imóvel, dura, muda, surda, insensível, imprestável, inválida
Será que as pedras têm alma? E as plantas?
Todos os animais possuem, disso eu sei...
E amor, todos os animais amam? 

Até as minhocas, hienas e gafanhotos?
Eu não sei, mas eu vou dizer que sim, 

porque é no que eu quero acreditar

Tudo o que eu acredito ser verdade é verdade
Porque eu escolho o roteiro da minha vida
Já que ela é um livro, dez livros, cem, uma biblioteca inteira
Eu mando em Mim porque paguei caro pelos direitos autorais em cartório
Mas, me dou de graça pra quem quiser me ver, beijar, tocar...
Como me dei pra você
Desembrulhada do papel de presente e até meio gasta
Mulher adquirida em brechó por defeito de fabricação
Já passei por infinitas trocas
Até que finalmente perceberam que não sirvo para ficar na vitrine

A peça usada e sem botão, com a etiqueta soltando e a costura torta
Enquanto você passeia pelas ruas e se delicia com vitrines de luxo
Como são atrativas essas novidades que surgem em nosso caminho
Como são saborosas as flores do passado 

que se mantém sempre frescas, saborosas
As mulheres possuem um encanto que me assusta e me rende
Eu não teria como não amá-las, pois sou fã do que todas elas são
Menos de mim


Porque a mulher que eu sou não se encaixa na perfeição 

em que todas as mulheres se encontram, endeusadas
Minha falta de egocentrismo me faz enxergar em cada mulher 

um novo universo
E em mim, apenas uma parte da parte que se partiu 

e que está prestes a partir desse mesmo universo

Por isso devo alertá-lo:
Caso não sejam falsas as suas palavras de ternura 

para os meus ouvidos puros
Que tome consciência de que não há em mim raridade alguma
Nenhum diferencial ou encanto incomum, excêntrico, exótico
Você pode ter rubis e esmeraldas
Mas eu sou apenas um quartzo.

A maldição dos 18

Quem sabe se de flor não for meu nome
ele não te desconserte, te deixe insone
Quem sabe a suposta flor do meu nome
não te persegue ou te abandone

Eu sei que na cor do meu homem
Eu vejo o brilho da lua
E quem beijo talvez não se engane
ao me querer pra si
ao me desejar tão nua

Meus olhos desmontam suas frases
E tiram toda e qualquer compostura
enquanto eu jamais me calo
jamais me canso
enquanto não sou sua. 

Não seja economista

Não faça economia nos carinhos
Por favor, não poupe amor
Já existe tanta coisa boa racionada nesse mundo
Vamos nos fartar pelo menos disso

Não se prive do meu romantismo
Não me prive de saborear sua essência
Permita-se gastar sua saliva, sua energia
Você vai ganhar muita coisa com essas perdas, acredite

O retorno é sempre muito compensador
Então ame, chore, grite, perca o fôlego
e fique comigo
A sua recém-descoberta capitalistazinha

Deixe que eu te ensine
que dinheiro só é bom porque não vale nada
diante da felicidade que pode sentir
com um sorriso aberto pela manhã

Pode me ensinar suas teorias e alguns conceitos
Eu sei que pode haver algum fundamento
na junção de exatas com humanas
Mas você só precisa se apaixonar...
(Mais)








Vestígios de um poema inexistente

Você precisava ver seus olhos
exatamente como os vi
Eles me amavam pela retina
Sua menina olhando minha menina
com piscadas rápidas de tensão
antes de se fecharem pra você sorrir

Eu precisava ver em seus olhos
bem mais que o reflexo de mim
Era preciso enxergar o que visto
por um atento potencial visual
Seria um final que não terminasse em fim

Pois ainda que enfim visto
um final que não terminasse de fato
Que acabasse antes do fim do parágrafo
onde as reticências completam os versos

Final repleto de silêncios camuflados
de infinitos “sins” não-declarados
traduzidos de uma só vez numa chuva de “eu te amos” claros
como seus olhos ficam nos dias de sol
brilhando de tão amados
numa manhã de Carnaval.



O veneno e a cura

Você precisa sentir seus pulmões, homem
Parar para ouvir seu coração exausto
E precisa reaprender a chorar de felicidade
Você não precisa se condenar a ser o que era
Porque os homens mudam, isso é um fato

Não deixe que as torturas da realidade consigam te envenenar
Desde que tente pôr tudo em prática
a partir do momento em que luta pelo que busca
Ser racional passa a ser sonhar
E não existe vergonha nenhuma em ser chamado de sonhador
Não devia ter medo algum de algo que deseja se realizar

Lembre-se: você vai se sentir oco...
Você vai querer desistir de tudo
Mas faz parte, meu bem, faz parte
Os frutos precisam despencar para que a terra germine as sementes
Assim são as coisas nesse nosso mundo
Para vencer, você só precisa continuar vivendo
Então receberá tudo o que lhe é de direito

E eu posso ser o seu Renascimento neste romance
Mas fora das páginas e longe das linhas
Você pode ser a própria fênix
Porque não foi alguém ou alguéns que o tiraram do transe
Só que você preferiu achar que estava fora
O na verdade vinha de dentro
Querido, você é o seu próprio veneno
Permita-se que sua cura o salve.

Meus ses

E se as minhas palavras fossem verbos
e se meus verbos fossem todos versos
e se ao inverso eu originasse um poema
que nascesse da minha alegria
e nos fizesse mudar de vez a cena?

E se você tivesse pena
do meu sofrimento descabido
que mais parece quarentena
sentimental de um amor destruído?

E se eu não estivesse na Paraíba,
mas em Pernambuco
Se valesse a pena isso tudo
de querer e não ter por puro medo?

Se fosse pecado guardar segredo
Se fosse lei declarar o amor sentido
Se pudéssemos sorrir de qualquer rejeição
E se?
Teria graça?


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O vazio que preenche toda a imensidão do mundo

É o amor causando a ausência dos sons
Ausência dos toques
Ausência de tudo o que não é a simples presença
Depois, ausenta até mesmo a presença

O estar que já não basta estando
Sem que nenhum beijo seja dado
Sem que haja qualquer manifestação física de afeto
O amor nos causa a quietude mais profunda e mística

E nos imobiliza, meros reféns que somos
Nada do que antes parecesse ter significado continua a tê-lo
Tudo é claro, límpido, tudo é cru
E ausência de tudo o que há além dele, domina o todo

É o amor causando a ausência do mundo
Deixando para trás qualquer sentido, razão ou motivo
Ausência plena de qualquer coisa concreta
O amor nos tira TUDO

E assim, nos faz completos
Sendo então, feitos só de amor.

O café da manhã não tem culpa...

Não se trata do café da manhã
Nem do fato de chover antes das 8
Se trata justo de não se tratar
Não se trata, nem trata-se
Nada tem de relação com o que pensa
Ou com o que fez noite passada
Naquele bar

Não trate no café da manhã
De assuntos que simplesmente
Não devem ser tratados
Feito animal selvagem
Que não pode ser enjaulado
Senão perde-se do que é
Destratado

Nada de trato no café da manhã
Essa não é uma boa hora para isso
Acordos, parcerias, projetos
Não acabe com o meu desjejum
Se estou acompanhada de pão francês sem miolo
Com café cheio de açúcar mascavo.
Por favor, não no café da manhã

Não me destrate no café da manhã
Talvez no jantar você deva,
Mas nunca no café da manhã
Pois sempre a essa hora do dia
Ainda que seja já à tarde
Sempre é um começo muito recente
Para “maltratos” nesse tempo do dia

E se eu às vezes sei mais fazer poesia,
Não me maltrate, não se desgaste,
Não me empate, não se disfarce e principalmente,
Não se trata do café da manhã
É simplesmente o amor, que se foi.





Deusa soberana dos efeitos colaterais do amor

Eu sou a mulher mais paciente desse mundo
Porque sei que tudo se encaixa
Que as peças se encontram,                                                                                                porque um quebra-cabeça é assim
E viver é montá-lo, incansavelmente
Aconteça o que acontecer, sempre acontece
Não vou desanimar
Não vou desistir

Talvez seja essa a explicação para esses meus romances
Nunca tendo a pessoa desejada próximo a mim
Sempre com essa separação física
Sempre tendo um infinito entre dois corpos

O destino notou minha queda para o incomum
Então reservou aos meus dias de suspiros esse diferencial
O fato de nunca ter perto o coração compartilhado
A sorte e o azar de viver sentindo saudade

Porque não há prazer mais belo em sofrer
Que a saudade de quem ama, de quem deseja, de quem cobiça
Só ela, deusa soberana dos efeitos colaterais do amor
Pode ser capaz de transformar em poético
O que deveria ser trágico. 

Eu culpo o romantismo

Por excesso de amor em mim
Já que sou feita de puro romantismo
Me transformo em uma criatura assustadora
Contrariando o que penso em tudo o que eu digo
E eu agindo como se fosse real toda aquela fantasia

Por excesso de amor em mim
Eu simplesmente me anulo dia-a-dia
Enchendo de parênteses minhas concretas exclamações
E pondo vírgulas intermináveis onde deveria ter um fim

Por excesso de amor em mim
Eu fujo de tudo o que amo
Eu luto contra quem me apaixono
E derroto sempre meu próprio coração

Por excesso de amor em mim
Não olho ninguém com seriedade
Não admito ser vista com bons olhares
E me derrubo sempre do meu delicado pedestal

Tudo isso por conter tanto amor em meu peito
Amor que corre em mim feito veneno eterno
Agravando meu estado alarmante de tão rara sanidade mental
Me condenando à solidão sem sim pelo medo
De acabar realmente me entregando a alguém no final.



Eu quero uma flor no nosso próximo encontro

É preciso resgatar o romantismo que você nunca viu
Eu cresci num conto de fadas e não é agora que vou sair
O livro já é grande o bastante pra nós dois
Então te puxo pra dentro e divido meu espaço contigo
Mas é preciso relembrar o romantismo que ainda não descobriu 


Eu sou uma senhorita sem honra nem cerimônia
Que não sabe aguardar até o dia seguinte pra falar o que for
Mas não venha me dizer que isso não é doce
Porque eu derramo mel pra mil beija-flores
E não dedico 100% de atenção por nada
Que não seja em prol do amor 


Vamos nos encontrar em breve
Na beira da praia, do meu desespero, na margem da página
Do diário que escrevo
Todo santo dia
A partir de tão pouco tempo
Falando de você, pra mim
Porque só eu posso ler aquelas frases
Que de tão íntimas, nem meu Eu repete em voz alta
Tamanha a intensidade 


E eu desejo que me traga uma flor
Porque assim devem ser os encontros
Ainda que seja pecado escrever um roteiro
Ainda assim, desejo uma flor
Comprada numa floricultura de esquina
Furtada do muro da sua vizinha
Ou encontrada no chão quando vier ao meu encontro
Uma flor pra mim
E pronto. 





A lembrança

Eu sinto o cheiro da sua pele através da foto 
A sua imagem revela sua essência 
É doce, mas com uma acidez no fim 
É vintage, tamanha modernidade 

Eu sinto o cheiro da sua pele através da sua caligrafia 
As suas cartas revelam sua intensidade 
É extra sentimental até onde a gramática julga possível 
Límpida, declara pureza 

 Eu sinto o cheiro da sua pele através das minhas lembranças 
A minha memória revela sua alma de fortaleza 
É forte por detrás da sua fragilidade 
Como uma teia o é para pequenos predadores 
Declara guerra 
E eu me rendo.