sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O vazio que preenche toda a imensidão do mundo

É o amor causando a ausência dos sons
Ausência dos toques
Ausência de tudo o que não é a simples presença
Depois, ausenta até mesmo a presença

O estar que já não basta estando
Sem que nenhum beijo seja dado
Sem que haja qualquer manifestação física de afeto
O amor nos causa a quietude mais profunda e mística

E nos imobiliza, meros reféns que somos
Nada do que antes parecesse ter significado continua a tê-lo
Tudo é claro, límpido, tudo é cru
E ausência de tudo o que há além dele, domina o todo

É o amor causando a ausência do mundo
Deixando para trás qualquer sentido, razão ou motivo
Ausência plena de qualquer coisa concreta
O amor nos tira TUDO

E assim, nos faz completos
Sendo então, feitos só de amor.

O café da manhã não tem culpa...

Não se trata do café da manhã
Nem do fato de chover antes das 8
Se trata justo de não se tratar
Não se trata, nem trata-se
Nada tem de relação com o que pensa
Ou com o que fez noite passada
Naquele bar

Não trate no café da manhã
De assuntos que simplesmente
Não devem ser tratados
Feito animal selvagem
Que não pode ser enjaulado
Senão perde-se do que é
Destratado

Nada de trato no café da manhã
Essa não é uma boa hora para isso
Acordos, parcerias, projetos
Não acabe com o meu desjejum
Se estou acompanhada de pão francês sem miolo
Com café cheio de açúcar mascavo.
Por favor, não no café da manhã

Não me destrate no café da manhã
Talvez no jantar você deva,
Mas nunca no café da manhã
Pois sempre a essa hora do dia
Ainda que seja já à tarde
Sempre é um começo muito recente
Para “maltratos” nesse tempo do dia

E se eu às vezes sei mais fazer poesia,
Não me maltrate, não se desgaste,
Não me empate, não se disfarce e principalmente,
Não se trata do café da manhã
É simplesmente o amor, que se foi.





Deusa soberana dos efeitos colaterais do amor

Eu sou a mulher mais paciente desse mundo
Porque sei que tudo se encaixa
Que as peças se encontram,                                                                                                porque um quebra-cabeça é assim
E viver é montá-lo, incansavelmente
Aconteça o que acontecer, sempre acontece
Não vou desanimar
Não vou desistir

Talvez seja essa a explicação para esses meus romances
Nunca tendo a pessoa desejada próximo a mim
Sempre com essa separação física
Sempre tendo um infinito entre dois corpos

O destino notou minha queda para o incomum
Então reservou aos meus dias de suspiros esse diferencial
O fato de nunca ter perto o coração compartilhado
A sorte e o azar de viver sentindo saudade

Porque não há prazer mais belo em sofrer
Que a saudade de quem ama, de quem deseja, de quem cobiça
Só ela, deusa soberana dos efeitos colaterais do amor
Pode ser capaz de transformar em poético
O que deveria ser trágico. 

Eu culpo o romantismo

Por excesso de amor em mim
Já que sou feita de puro romantismo
Me transformo em uma criatura assustadora
Contrariando o que penso em tudo o que eu digo
E eu agindo como se fosse real toda aquela fantasia

Por excesso de amor em mim
Eu simplesmente me anulo dia-a-dia
Enchendo de parênteses minhas concretas exclamações
E pondo vírgulas intermináveis onde deveria ter um fim

Por excesso de amor em mim
Eu fujo de tudo o que amo
Eu luto contra quem me apaixono
E derroto sempre meu próprio coração

Por excesso de amor em mim
Não olho ninguém com seriedade
Não admito ser vista com bons olhares
E me derrubo sempre do meu delicado pedestal

Tudo isso por conter tanto amor em meu peito
Amor que corre em mim feito veneno eterno
Agravando meu estado alarmante de tão rara sanidade mental
Me condenando à solidão sem sim pelo medo
De acabar realmente me entregando a alguém no final.



Eu quero uma flor no nosso próximo encontro

É preciso resgatar o romantismo que você nunca viu
Eu cresci num conto de fadas e não é agora que vou sair
O livro já é grande o bastante pra nós dois
Então te puxo pra dentro e divido meu espaço contigo
Mas é preciso relembrar o romantismo que ainda não descobriu 


Eu sou uma senhorita sem honra nem cerimônia
Que não sabe aguardar até o dia seguinte pra falar o que for
Mas não venha me dizer que isso não é doce
Porque eu derramo mel pra mil beija-flores
E não dedico 100% de atenção por nada
Que não seja em prol do amor 


Vamos nos encontrar em breve
Na beira da praia, do meu desespero, na margem da página
Do diário que escrevo
Todo santo dia
A partir de tão pouco tempo
Falando de você, pra mim
Porque só eu posso ler aquelas frases
Que de tão íntimas, nem meu Eu repete em voz alta
Tamanha a intensidade 


E eu desejo que me traga uma flor
Porque assim devem ser os encontros
Ainda que seja pecado escrever um roteiro
Ainda assim, desejo uma flor
Comprada numa floricultura de esquina
Furtada do muro da sua vizinha
Ou encontrada no chão quando vier ao meu encontro
Uma flor pra mim
E pronto. 





A lembrança

Eu sinto o cheiro da sua pele através da foto 
A sua imagem revela sua essência 
É doce, mas com uma acidez no fim 
É vintage, tamanha modernidade 

Eu sinto o cheiro da sua pele através da sua caligrafia 
As suas cartas revelam sua intensidade 
É extra sentimental até onde a gramática julga possível 
Límpida, declara pureza 

 Eu sinto o cheiro da sua pele através das minhas lembranças 
A minha memória revela sua alma de fortaleza 
É forte por detrás da sua fragilidade 
Como uma teia o é para pequenos predadores 
Declara guerra 
E eu me rendo.